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A vida escrita
Terça-feira, Maio 15, 2012
eterna adolescência
na clínica
Domingo, Maio 13, 2012
neblina
uma neblina branca cobre os prédios com um potencial surrealista. Estar calor sem fazer sol tem qualquer coisa de tragicomédia. O telejornal da tarde fecha com uma peça do Sassetti que morreu há pouco na falésia. O piano induz a olhar a rua no seu crescendo de vida - aquele momento em que o fim (de cada um e de todas as coisas) é conscienciosamente anunciado. A velhota passa agarrada à sobrinha, o polícia olha para as botas melancólico, o homem levanta vagarosamente as chávenas das bicas, a rapariga lê o jornal, e nada disto é sereno.
Sexta-feira, Abril 27, 2012
acontecendo
ao mesmo tempo irrompendo coisas lindas,
casas maiores do que as paredes guardam memórias por viver
vontades antigas ganham forma, braços unem-se mais certeiros.
Sexta-feira, Abril 06, 2012
"quem sabe amor onde o amor se fere?”
Ao contrário de tantos poetas, em Assis Pacheco o amor não se manifesta tanto num jogo de privação e de busca, mas numa cumplicidade do sentimento vivido a dois. Reacção, novidade e vivência, sem intelectualizar o conceito cujo sentido da sua existência é ser vivido. Nos seus poemas adivinha-se uma presença concreta que extravasa as metáforas e partilha os versos.
No poema Volta à Amada em uma Semana, Assis Pacheco descreve a sequência que o levou a aportar no “país rumorejante” que personifica o amor, transfiguração a caminho: passa por ser casa, por cegar o amante com as suas delícias, atribui conhecimento (“senti-me sábio, cheio de janelas e fragrâncias”), é temido e indesejado (“gritei, nunca tu viesses, dominador, devorador!”), até ser enfim imenso e capaz de tudo absorver (“eu era um oceano”). Depois, o amante transformado (transforma-se o amador na cousa amada), experimenta reacções contraditórias: aceitação e revolta, prisão e arrebatamento.
Numa profunda relação entre poesia, dor e libertação, o amor é também libertação desmesurada das mais sinceras aspirações dos homens, não nomeáveis, não definidas. Um mundo enlouquecido do qual a expressão lírica se aproxima por imagens: “Não sei se o que chamam amor / é a cama desfeita o sol fugindo, / uma vontade louca de beber / a grandes goles a noite entorpecente.” (A.P.) É esse descomedido gesto, simultaneidade de sensações e de vontades antagónicas, de tudo querer e ousar: “sem causa, juntamente choro e rio / o mundo todo abarco e nada aperto”. A finura inconsistente da areia diz da sua vulnerabilidade: “Não sei / se o que chamam amor é este apaziguamento.(...) não sei se o que enfim chamam / amor é esta areia fina.” Exaltação, reafirmar a dúvida, para que ninguém esqueça: “quero lembrar que sou pelo amor, / suas virtudes e armas / contra a melancolia”. Pois o “amor não quer cordeiros nem bezerros.”
“um homem tem que viver com um pé na Primavera”
Tenho estado a reler a poesia de Fernando Assis Pacheco. Um diálogo intertextual familiar a António Machado e toda a literatura espanhola, poesia inglesa entre guerras, poesia americana contaminada pelos vanguardistas europeus emigrados, fugindo aos modelos estilísticos dos anos 60 cheios de ecos neo-realistas. Uma certa ironia lírica surrealizante que versa os encantos do acaso, quotidiano e viagens sem preocupações formais, numa mestria que derruba barreiras entre a poesia e as pessoas. Adepto da ideia de que a poesia só deve ser difícil para quem a escreve, como aforismou Vladimir Holan: “do esboço à obra o caminho faz-se de joelhos”.
“Oferecendo-nos a bela ilusão da grandeza humana, o trágico traz-nos uma consolação. O cómico é mais cruel: revela-nos, brutalmente, a insignificância de tudo", já explicava o Kundera. Pelo risível lá se vai desconstruindo a aparente finalidade da vida e Assis Pacheco lembra a condição ingrata e egocêntrica do poeta, aquele que se está sempre a lamentar e a exibir ao mundo as suas dores particulares, qual menino mimado a pedir afecto. “Amantes em aflição”, os poetas. indignar-me é o meu signo diário, escreve em Poeta no Supermercado.
em tempos fazia coisas destas para a faculdade...
Apontamos desde já para os seguintes pontos do trabalho a desenvolver:
- o estranhamento de si: personagens deslocadas do seu corpo: demência
- a impossibilidade de afirmação identitária – conflito entre a linguagem e o seu referente
- o apagamento de sentido no próprio projecto de escrita: contra a linearidade narrativa e a continuidade temporal
- o grito como histerização do vazio, da incapacidade de comunicar, daquilo que está fora das categorias da realidade
- processos narrativos – multiplicação das vozes; labirinto de vozes com um elemento ordenador que é uma espécie de eco de todas as vozes - um narrador acumulador de vozes. A polifonia como materialização das individualidades ambíguas
- a desfiguração do real através de uma escrita microscópica contra a perfeição do todo. A individuação dos sintomas realizada pela estética da decomposição e fragmentação que deforma: “só a deformação é visível”