Terça-feira, Maio 15, 2012



Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
(...)
Herberto Helder, 1961

eterna adolescência

que dificulta a transição do pensamento fantasmático para o pensamento racional. 

na clínica


As mulheres têm um ar de desalento e os companheiros dão-lhes força. Ninguém sabe se vão conseguir resolver os seus problemas e as relações ficam tensas nessa culpabilidade inocente. 

Domingo, Maio 13, 2012

neblina

a porta do café dá para a embaixada de frança quase no cruzamento com a rua da esperança.
uma neblina branca cobre os prédios com um potencial surrealista. Estar calor sem fazer sol tem qualquer coisa de tragicomédia. O telejornal da tarde fecha com uma peça do Sassetti que morreu há pouco na falésia. O piano induz a olhar a rua no seu crescendo de vida - aquele momento em que o fim (de cada um e de todas as coisas) é conscienciosamente anunciado. A velhota passa agarrada à sobrinha, o polícia olha para as botas melancólico, o homem levanta vagarosamente as chávenas das bicas, a rapariga lê o jornal, e nada disto é sereno.

Sexta-feira, Abril 27, 2012

acontecendo

tempo sombrio, estranho, severo, de abandonos e morte dos que fazem falta.
ao mesmo tempo irrompendo coisas lindas,
casas maiores do que as paredes guardam memórias por viver
vontades antigas ganham forma, braços unem-se mais certeiros.


Sexta-feira, Abril 06, 2012

"quem sabe amor onde o amor se fere?”

Ao contrário de tantos poetas, em Assis Pacheco o amor não se manifesta tanto num jogo de privação e de busca, mas numa cumplicidade do sentimento vivido a dois. Reacção, novidade e vivência, sem intelectualizar o conceito cujo sentido da sua existência é ser vivido. Nos seus poemas adivinha-se uma presença concreta que extravasa as metáforas e partilha os versos.

No poema Volta à Amada em uma Semana, Assis Pacheco descreve a sequência que o levou a aportar no “país rumorejante” que personifica o amor, transfiguração a caminho: passa por ser casa, por cegar o amante com as suas delícias, atribui conhecimento (“senti-me sábio, cheio de janelas e fragrâncias”), é temido e indesejado (“gritei, nunca tu viesses, dominador, devorador!”), até ser enfim imenso e capaz de tudo absorver (“eu era um oceano”). Depois, o amante transformado (transforma-se o amador na cousa amada), experimenta reacções contraditórias: aceitação e revolta, prisão e arrebatamento.

Numa profunda relação entre poesia, dor e libertação, o amor é também libertação desmesurada das mais sinceras aspirações dos homens, não nomeáveis, não definidas. Um mundo enlouquecido do qual a expressão lírica se aproxima por imagens: “Não sei se o que chamam amor / é a cama desfeita o sol fugindo, / uma vontade louca de beber / a grandes goles a noite entorpecente.” (A.P.) É esse descomedido gesto, simultaneidade de sensações e de vontades antagónicas, de tudo querer e ousar: “sem causa, juntamente choro e rio / o mundo todo abarco e nada aperto”. A finura inconsistente da areia diz da sua vulnerabilidade: “Não sei / se o que chamam amor é este apaziguamento.(...) não sei se o que enfim chamam / amor é esta areia fina.” Exaltação, reafirmar a dúvida, para que ninguém esqueça: “quero lembrar que sou pelo amor, / suas virtudes e armas / contra a melancolia”. Pois o “amor não quer cordeiros nem bezerros.”

“um homem tem que viver com um pé na Primavera”

Tenho estado a reler a poesia de Fernando Assis Pacheco. Um diálogo intertextual familiar a António Machado e toda a literatura espanhola, poesia inglesa entre guerras, poesia americana contaminada pelos vanguardistas europeus emigrados, fugindo aos modelos estilísticos dos anos 60 cheios de ecos neo-realistas. Uma certa ironia lírica surrealizante que versa os encantos do acaso, quotidiano e viagens sem preocupações formais, numa mestria que derruba barreiras entre a poesia e as pessoas. Adepto da ideia de que a poesia só deve ser difícil para quem a escreve, como aforismou Vladimir Holan: “do esboço à obra o caminho faz-se de joelhos”.

“Oferecendo-nos a bela ilusão da grandeza humana, o trágico traz-nos uma consolação. O cómico é mais cruel: revela-nos, brutalmente, a insignificância de tudo", já explicava o Kundera. Pelo risível lá se vai desconstruindo a aparente finalidade da vida e Assis Pacheco lembra a condição ingrata e egocêntrica do poeta, aquele que se está sempre a lamentar e a exibir ao mundo as suas dores particulares, qual menino mimado a pedir afecto. “Amantes em aflição”, os poetas. indignar-me é o meu signo diário, escreve em Poeta no Supermercado.

em tempos fazia coisas destas para a faculdade...

Apontamos desde já para os seguintes pontos do trabalho a desenvolver:

- o estranhamento de si: personagens deslocadas do seu corpo: demência

- a impossibilidade de afirmação identitária – conflito entre a linguagem e o seu referente

- o apagamento de sentido no próprio projecto de escrita: contra a linearidade narrativa e a continuidade temporal

- o grito como histerização do vazio, da incapacidade de comunicar, daquilo que está fora das categorias da realidade

- processos narrativos – multiplicação das vozes; labirinto de vozes com um elemento ordenador que é uma espécie de eco de todas as vozes - um narrador acumulador de vozes. A polifonia como materialização das individualidades ambíguas

- a desfiguração do real através de uma escrita microscópica contra a perfeição do todo. A individuação dos sintomas realizada pela estética da decomposição e fragmentação que deforma: “só a deformação é visível”